Os cursos de graduação de Relações Internacionais das universidades brasileiras tendem a priorizar em suas grades curriculares o debate teórico clássico das Relações Internacionais (RI), deixando de abordar teorias pós-modernas, que ganharam espaço no debate acadêmico ao longo dos anos 90. São várias as abordagens que tiveram ampliada sua inserção no mainstream das RI. Dentre elas, podemos destacar as discussões sobre gênero e, particularmente, o debate sobre o feminismo. O objetivo deste artigo é fazer uma breve apresentação da teoria feminista das Relações Internacionais, que tem crescido nos últimos anos, especialmente nos EUA e Europa, porém tem tido pouca relevância nos centros de pesquisas e universidades do país.
A teoria feminista surgiu no debate teórico das RI somente depois de outras áreas acadêmicas já terem incorporado o gênero como uma categoria de análise[1].
A teoria feminista surgiu no debate teórico das RI somente depois de outras áreas acadêmicas já terem incorporado o gênero como uma categoria de análise[1].
Um evento importante para a inserção deste tema nas relações internacionais foi a Conferência dos Direitos Humanos, em 1993, quando foram reconhecidos os direitos humanos das mulheres. A partir de então, outras conferências e convenções internacionais foram realizadas, como uma conquista do movimento feminista, e que permitiu alguns autores começar a tratar de forma sistemática questões como violência, poder de decisão, conflitos armados e até particularidade da menina.
No entanto, a discussão sobre a igualdade de gênero não promoveu no movimento político um discurso homogêneo, assim como também não ocorreu uma homogeneização de interpretações no plano da teoria. Estes múltiplos ‘feminismos’ desdobram-se basicamente em três vertentes teóricas principais: a empírica, de premissas liberais; a ‘staindpoint’, de perspectiva crítica e a pós-moderna, contra uma identidade universal da mulher[2].
Excetuando a escola liberal, a teoria feminista de RI situa-se no debate pós-positivista, ao criticar os conceitos da modernidade, vistos como uma construção masculina.
No entanto, a discussão sobre a igualdade de gênero não promoveu no movimento político um discurso homogêneo, assim como também não ocorreu uma homogeneização de interpretações no plano da teoria. Estes múltiplos ‘feminismos’ desdobram-se basicamente em três vertentes teóricas principais: a empírica, de premissas liberais; a ‘staindpoint’, de perspectiva crítica e a pós-moderna, contra uma identidade universal da mulher[2].
Excetuando a escola liberal, a teoria feminista de RI situa-se no debate pós-positivista, ao criticar os conceitos da modernidade, vistos como uma construção masculina.
O feminismo considera diferentes formas metodológicas e epistemológicas para o entendimento das RI. Enquanto o debate positivista entre neoliberais e neo-realistas, na década de 80, pautava-se por discutir, da perspectiva da centralidade do Estado enquanto ator racional, a assimetria de poder e a lógica de maximização dos ganhos; as feministas estavam propondo levar para a teoria o dia-a-dia da mulher, trazendo o enfoque no indivíduo e o espaço privado, desconsiderado na modernidade. A crítica é de que na divisão do espaço público/privado, a mulher situava-se no último e a sua exclusão não é uma coincidência. A mulher é então caracterizada pelo cuidado, cooperação e emoção, e na dualidade racional/irracional, é considerada irracional, portanto excluída da autoridade do conhecimento. O debate dos positivistas pressupõe a neutralidade do Estado, e em vista disto mascara a desigualdade de gênero[3].
A visão feminista concebe que Estados e instituições como atores principais não dão conta da especificidade da mulher, porque não leva em consideração o indivíduo do sexo feminino, o qual não tem igualdade de participação tal como o sexo masculino, na construção e legitimação destes atores. O Estado não abrange o espaço privado, onde a mulher também sofre opressão e, portanto, não lhe provém a segurança que os realistas assumem ser garantida pelo Estado.
Esta é uma discussão atual e apesar de ser uma teoria marginalizada, desafia pesquisadores a responderem às mudanças decorridas da inclusão da mulher como ator parte do sistema internacional e a responder aos questionamentos feministas sobre soberania e identidade[4].
Contudo, apesar de hoje a International Studies Association (ISA) ter suas reuniões marcadas por críticas feministas, e ter como presidenta da associação Ann Tickner, uma feminista com trabalhos relevantes na literatura acadêmica das Relações Internacionais, somente as universidades estrangeiras abriram espaço para o tema. Os trabalhos feministas da área de humanas no Brasil costumam discorrer sobre aspectos sociológicos da discriminação e participação das mulheres. Porém, a pós-graduação em RI no país vê crescer o interesse por “novos temas”, mas que ainda se restringe a temas de meio-ambiente, direitos humanos e intervenções humanitárias, deixando de lado a teoria feminista[5].
A perspectiva, entretanto, é de que com o crescimento da área, o feminismo possa ganhar destaque, a partir de três fatores: 1. do retorno de estudantes de RI que tiveram a oportunidade de estudar no exterior e que por isso podem trazer estas novas abordagens; 2. do interesse das feministas em discutir como o processo internacional influencia a posição da mulher na sociedade e por fim, 3.da maior disseminação deste conhecimento entre os alunos de Relações Internacionais e na sociedade, para que não seja entendido como uma ‘apelação das mulheres’ às RI.
A visão feminista concebe que Estados e instituições como atores principais não dão conta da especificidade da mulher, porque não leva em consideração o indivíduo do sexo feminino, o qual não tem igualdade de participação tal como o sexo masculino, na construção e legitimação destes atores. O Estado não abrange o espaço privado, onde a mulher também sofre opressão e, portanto, não lhe provém a segurança que os realistas assumem ser garantida pelo Estado.
Esta é uma discussão atual e apesar de ser uma teoria marginalizada, desafia pesquisadores a responderem às mudanças decorridas da inclusão da mulher como ator parte do sistema internacional e a responder aos questionamentos feministas sobre soberania e identidade[4].
Contudo, apesar de hoje a International Studies Association (ISA) ter suas reuniões marcadas por críticas feministas, e ter como presidenta da associação Ann Tickner, uma feminista com trabalhos relevantes na literatura acadêmica das Relações Internacionais, somente as universidades estrangeiras abriram espaço para o tema. Os trabalhos feministas da área de humanas no Brasil costumam discorrer sobre aspectos sociológicos da discriminação e participação das mulheres. Porém, a pós-graduação em RI no país vê crescer o interesse por “novos temas”, mas que ainda se restringe a temas de meio-ambiente, direitos humanos e intervenções humanitárias, deixando de lado a teoria feminista[5].
A perspectiva, entretanto, é de que com o crescimento da área, o feminismo possa ganhar destaque, a partir de três fatores: 1. do retorno de estudantes de RI que tiveram a oportunidade de estudar no exterior e que por isso podem trazer estas novas abordagens; 2. do interesse das feministas em discutir como o processo internacional influencia a posição da mulher na sociedade e por fim, 3.da maior disseminação deste conhecimento entre os alunos de Relações Internacionais e na sociedade, para que não seja entendido como uma ‘apelação das mulheres’ às RI.
*Este artigo é baseado na monografia intitulada: 'Feminismo nas Relações Internacionais' que escrevi de setembro à dezembro de 2005.
[1] HALLIDAY, Fred. Repensando as Relações Internacionais. Porto Alegre: Universidade do Rio Grande do Sul, 1999. (p. 163).
[2] HARDING, Sandra apud DONAVAN, Josephine. Feminist Theory. The Intellectual Traditions of American Feminism. New York: The Continum Publishing Company, 1997. (p.192)
[3] TICKNER, J. Ann. ‘You Just Don’t Understand: Troubled Engagements between Feminists and IR Theorists”. International Studies Quarterly, 41, n°4, dec-1997. (p. 614)
[4] NOGUEIRA, João Pontes e MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Campus, 2005. (p. 230).
[5] OLIVEIRA, Amâncio e ONUKI, Janina. A produção da pós-graduação em Relações Internacionais no Brasil. São Paulo: CAENI/USP, Mimeo, 2005.
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